Um Pouco sobre os Proscritos

Os Proscritos são uma ameaça central no universo de BRIGADA LIGEIRA ESTELAR e falo pouco deles por termos uma trama em curso, desenvolvida aos poucos. Muito sobre eles será exposto em publicações futuras — e algumas delas serão ponte para eventos mencionados no RPG vindouro. Realmente adotei uma estratégia similar à de TORMENTA RPG (os segredos da ameaça só foram liberados no suplemento Área de Tormenta). Mas posso falar de seu processo criativo.

Para começar, a “invasão interestelar” é um clássico do gênero e levei um bom tempo pensando em como seria a natureza do invasor. Pensei em “alienígenas” mas introduzir raças estranhas poderia deixar o cenário híbrido demais. Havia solução: quando temos tais povos na animação japonesa, a abordagem costuma ser mais próxima de Jornada nas Estrelas — seres essencialmente humanos mas com cores ou elementos físicos “estranhos” para marcar a diferença.

Com isso eu poderia criar invasores nos moldes dos animes de Tadao Nagahama e Leiji Matsumoto* — mas um escopo maior poderia esvaziar a constelação como cenário. Foi quando veio à mente Go Nagai, a quem eu já desejava fazer um aceno: além dos seus super-robôs produzidos em massa, ele era autor de histórias sobre o pior da humanidade (Violence Jack, Susanoo) e veio o clique: o subtexto por trás da ambientação seria “civilização versus selvageria”.

Proscritos e suas Quimeras em massa. Arte de Israel de Oliveira para Batalha dos Três Mundos.

Isso definiu a Brigada: ela seria modelada por princípios iluministas e enfrentariam faces de uma mesma moeda anti-civilizatória. A externa seriam os Proscritos — um povo voltado ao interesse próprio a ponto de romper com todo tipo de civilidade ou empatia. A interna seriam aqueles dispostos a passar por cima destes conceitos e prejudicar ou exterminar populações em nome de seus interesses. Isso inclui nobres, federações de empresários, milícias…

E, justamente por isso, foi importante fazer dos proscritos humanos. Eles são um espelho do pior aonde podemos chegar — e nos inimigos internos, mais claramente em Tarso (aonde esses aspectos nos são esfregados na cara), enxergamos um caminho que leva para esse destino final. Uma influência importante aqui foram os Zygoteanos de Jim Starlin, no seu A Odisseia da Metamorfose (na graphic novel Dreadstar: o Princípio, publicada pela Mythos Editora).

Zygoteanos de Jim Starlin — uma doença terminal para a vida na galáxia, exigindo a sua… eutanásia.

Como falei, quis inserir algum elemento de Go Nagai (e por tabela do seu discípulo Ken Ishikawa, criador de Getter Robo). O tema do egoísmo extremo compôs as quimeras — verdadeiros mecha-kaijus na prática: ao buscar uma máquina especial, superando todos ao seu redor, um proscrito desfigura qualquer critério harmônico. Eles viraram monstros na sua busca pelo “seu” e seus robôs, como um espelho de suas almas, também foram transformados em monstros.

Enquanto isso, tivemos sinais do convívio dos Proscritos com sua tecnologia como os teleportos e defendróides (ver Arquivos do SabreAQUI). Os robôs e monstros de Ishikawa em Getter Robo, com sua perspectiva de horror cósmico, foram uma grande influência para as Quimeras (vale a pena ESTE artigo sobre o tema): elas precisavam ser ameaçadoras e de resto, como montar uma força militar — e a estrutura necessária para sustentá-la — nessas condições?

Os perturbadores seres biomecânicos de Ken Ishikawa em Getter Robo.

Pela força ou por interesses maiores acima de tudo. Ser um monstro não significa ser um idiota, ainda mais em uma sociedade aonde a divisão entre vencedores e perdedores define tudo. Com isso, alguns leitores perceberão a quebra de um conceito clássico: a humanização do oponente. Esse é um tema precioso nas obras fundamentais do gênero (tanto nos temas anti-belicistas do Gundam clássico quanto na gentileza conciliatória do Macross original). Mas…

… a vida também tem monstros.

Uma vez um escritor do ramo, ao qual respeito, disse ter um problema sério como escritor: não acreditar em vilania. Eu acredito. Ela é cotidiana e, a partir de certo ponto não é mais possível coibi-la com diálogo. Exemplos são fáceis de achar e costumam partir de uma só razão: se sentir legitimado no direito de abusar do outro, sem consequências nem culpas. O bully de escola já é uma larva da maldade, podem acreditar.

Violência não se dá sem consequências. Podem acreditar.

E não é preciso ir longe para se deparar com ela. Muitas coisas horríveis acontecem porque o responsável tem o mero desejo de fazê-lo, não mede consequências, não aceita contrariedade, tem os meios para se impor e nem se importa com o sofrimento causado. Frequentemente ele se sentirá dono da razão. Na verdade é tragicamente fácil encontrar os Proscritos entre nós. Por outro lado, se a vilania existe, talvez haja espaço para heroísmo na vida, não?

Há outros focos com oponentes mais humanizáveis, fiquem tranquilos — e para terminarmos menos filosoficamente e com uma nota prática para os jogadores: já em Batalha dos Três Mundos vocês tem algumas pistas preciosas sobre a relação deles com sua tecnologia (ao qual eles se referem como “a máquina”). Só digo para ficarem atentos a esse aspecto: como eu disse lá atrás, alguém (ou algo) precisa providenciar sua infra-estrutura, certo?

Até a próxima.

Prepare-se para enfrentar uma horda. Boa sorte.

* Tadao Nagahama é o criador da “Trilogia do Romance dos Robôs de Nagahama” — e embora ela envolvesse três séries de super-robôs (Combattler V, Voltes V e Tosho Daimos, volta e meia citados neste blog), sua abordagem seria pivotal para o amadurecimento do gênero que levaria à criação do real robot — e até para elementos fundamentais nesta vertente. Leiji Matsumoto é o criador de obras como Capitão Harlock e Patrulha Estelar.

Imagem do topo: Getter Robo Armageddon, baseado na obra de Ishikawa. Demais imagens de Batalha dos Três Mundos, Odisseia da Metamorfose, Getter Robo e Violence Jack — todos os direitos originais reservados.

3 comentários

  1. Boa visão

    Tenho minha história futurista, mas mais calcada em RPG
    Embora esteja parada a 12 anos, ainda a tenho, ainda quero fazer mangá disso

    No meu caso, meus “Proscritos” são de outra raça, clichê, sim, mas o enredo espero agradar (quando eu lançar, possívelmentr em livro, primeiro)

    Gostei da matéria, man!

      1. Eu digo “esse ano vai” tem uns 6 anos

        Vantagem. Hoje estou bem melhor no desenho, seja estética ou velocidade

        Só preciso estabilizar o mundo à minha volta (pra registrar aqui para as gerações futuras: cabou o $$, cabou o gás, ta acabando a comida) e irei, sim

        Tenho uns roteiro “bucha de canhão” com tema medieval fantástico, depois, pulo pro futurista, minha principal história (mangá com MUITOS capítulos), e, por fim, um mangá “atual” (atual entre 2002 e a época em que eu começar a mexer nele)

        Começando pelos medievais, em uns 3 anos caio no futurista, e 5 anos depois nos “atual”
        Isso conciliando com meus trabalhos habituais

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