Gerando Personagens Funcionais

Eu gosto muito dos geradores de históricos para personagens (Lifepaths — ou “Fluxovidas” por aqui) e embora o termo em português até condiga com o tom do cenário, prefiro “Tabela de Históricos” ou outro termo mais auto-explicativo. Eles são interessantes por nos inserirem no tom do cenário de cara e forçar o jogador a sair da caixa mental. Eu realmente quis colocar um no novo BRIGADA LIGEIRA ESTELAR RPG mas o livro já estava estupidamente grande.

Lifepaths tem muita história nos RPGs. Basta lembrar dos infames exemplares no clássico de ficção científica Traveller — aonde seu personagem poderia morrer, forçando o jogador a reiniciar a tabela. Nos primeiros tempos do cenário, cheguei a disponibilizar gratuitamente, na internet, uma adaptação livre do Lifepath do Mekton Zeta para a Constelação do Sabre. Ela foi conveniente por pertencer ao gênero mas hoje vejo alguns problemas práticos nela.

Talvez por isso o tabula rasa — o personagem cuja vida correu tranquila até o momento de se aventurar — muitas vezes tenha uma certa vantagem sobre esses personagens. Nada de “perdeu os pais”. Nada de “fui traído e quero vingança”. Nada de “minha namorada foi entregue a um nobre contra a vontade e quero retomá-la”. Ele é apenas alguém cuja vida correu tranquila até agora e por algum motivo decidiu embarcar em uma aventura. Seu caminho está livre.

Luke Skywalker, de Guerra nas Estrelas, é tabula rasa porque passou a vida inteira até então no seu canto
em um planeta desértico, sem reviravoltas. A morte dos tios só lhe removeu a última amarra.

Isso não significa personagens rasos. Imaginem uma moça criada por toda a sua vida para ser cortesã: nada de grave aconteceu até agora mas, para ela, essa apenas não é uma boa perspectiva* — preferindo se alistar na Brigada. É uma tabula rasa na sua falta de tragédias mas traz justificativa para perícias sociais e Aparência Deslumbrante. Eventos dramáticos poderiam catapultar essa personagem para a estrada mas ela já tem boas razões para fazê-lo.

É claro, tais eventos podem ser uma boa força motriz. O personagem britânico de quadrinhos Renegado (Rogue Trooper, no original**), de Gerry Finlay-Day e Dave Gibbons (Watchmen) é um bom exemplo: em meio a uma guerra espacial, um time de soldados geneticamente construídos é dizimado graças a traição de um superior. Um deles sobrevive, o Renegado, e seguimos sua jornada por vingança em um planeta devastado. Deu certo. O problema só viria à frente.

Rogue Trooper: conseguimos pegar o traidor responsável pelo
extermínio do pelotão (desculpem o spoiler). E agora?

Eventualmente Finlay-Day, veterano dos quadrinhos ingleses, se aposentou e decidiu concluir a trama da vingança contra o general traidor. No entanto, era uma série contínua. Ninguém planejava encerrá-la e, sem essa trama central do personagem, ele ficou sem razão de ser. A série se arrastaria até o cancelamento por perda de leitores apesar de contar com grandes desenhistas até o fim. Imagine isso na mesa de jogo. E não é a única arapuca possível.

Históricos densos demais, cheios de fatos e coadjuvantes, podem mergulhar o jogador no próprio umbigo, ignorando os eventos ao redor e os demais jogadores caso não se entrelacem com sua trama pessoal — ou seja, uma receita de desastre. O mestre pode passar por cima dessa maçaroca e usar só o necessário, ignorando o resto, mas corremos o risco de ter um jogador frustrado na mesa e, se alguém não estiver se divertindo, algo errado está acontecendo.

Não é preciso tudo isso para um personagem de RPG,
pelo amor das Estrelas! Sosseguem o facho!

Tão importante quanto um bom personagem é fazer parte de um time: se o histórico sabota a dinâmica de grupo, ele não é bom. Eles deveriam ser pontos de partida: a verdadeira história de um protagonista deveria se desenrolar em jogo e incluir os companheiros no processo. Isso não desmerece os lifepaths, mas eles são meros instrumentos para o jogador desenvolver seu background — a partir daí, é com ele. Vamos a um exemplo criado ao acaso nos dados:

Nero Góes era um jovem tarsiano de origem modesta e foi admitido na academia da guarda regencial ao lado de dois amigos de infância, se mostrando um ás em potencial. Foi quando, em um voo de treino com os colegas, ocorreu um desastre do qual ele, piloto, foi o único sobrevivente: Nero viu a morte de todos, inclusive desses dois. Sob stress pós-traumático, ele começou a ser investigado como o possível culpado… mas as evidências começavam a surgir.

Finjam que são carros magnéticos, flutuando a alguns palmos no chão.
De resto, está perfeito e tem a cara de Tarso. 😉

Todos os mortos eram pessoas “sem berço”, alvos de valentões da nobreza na academia. Foi quando recebeu um bilhete: Seus colegas planejavam “suicidá-lo” no banheiro e encerrar o assunto. Ele entrou com um processo imediato de transferência para a Brigada Ligeira Estelar (sendo enviado para o espaço). Isso fez dele fechado e calado, com medo de se envolver com os outros. Porém, Nero ainda está “sob investigação”… e isso pode ser usado contra ele.

Tudo neste personagem parece uma armadilha. Se o jogador se tornar um Edgelord (dêem uma olhada AQUI), o desastre estará feito. Se o jogador mergulhar na investigação e esquecer o resto, o desastre também estará feito. Por isso é conveniente a construção dos personagens ser feita em grupo, com todos presentes e discutindo ideias: e se ele entrar — de comum acordo entre os jogadores — em uma dinâmica de ponto e contraponto com um colega de equipe?

De certa forma, alguns tokusatsu conseguem lidar melhor com a dinâmica de grupo presente
nos RPGs do que muitos animes do gênero mecha com seus pilotos auto-centrados.

Isso pode dar a ele uma rota de desenvolvimento contínuo, capaz de fazê-lo prosseguir mesmo na eventualidade da resolução de sua trama principal: encaixando-se na dinâmica do resto do grupo, superando aos poucos seus traumas, percebendo aonde realmente estava antes, reencontrando em si a coragem para ser um ás, limpando seu nome… e, quem sabe, encontrando um novo desafio de longo prazo — um personagem digno de saudades quando a campanha terminar.

Essa é apenas uma ideia — e uma das muitas possibilidades. Os jogadores se divertirão muito mais com personagens entrosados entre si e os históricos não deveriam ser impedimentos para isso. Pelo contrário — eles são uma grande desculpa para os demais se meterem em alguma encrenca. Novamente, se alguém na mesa não estiver se divertindo, algo está sendo feito de errado. Se um histórico esconde uma nova trilha de aventura… por que não?

Até a próxima!

E lembrem-se sempre: no RPG o desenvolvimento do personagem
é individual, mas o entretenimento é coletivo! 😉

* Cortesãs não são bem prostitutas de luxo — talvez “Amante de carreira” seja uma definição melhor. O telefilme Madmoiselle Gigi (2005), de Caroline Huppert e baseado na obra de Colette, pode dar ideias sobre a formação de uma cortesã. Claro, há o musical de 1953 baseado no mesmo livro (Gigi, de Vincente Minelli) mas aquilo é na prática um longa animado da velha Disney em carne e osso — e isso é um pouco demais para o tema…
** As primeiras histórias do
Renegado foram publicados no Brasil através da saudosa Juiz Dredd Megazine, edições 13 a 18 — ou no Juiz Dredd Mega-Almanaque: Volume 3, compilando essas edições avulsas em um volume). É ficção científica militar de primeira! Todas elas estão em estoque na editora Mythos e o Almanaque pode ser encontrado na Amazon.

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