Academias do Sabre: Apontamentos

Tudo começou com uma brincadeira de Primeiro de Abril. Essa imagem no topo, cortesia da Simone Beatriz do Studio Seasons, é a suposta imagem da capa para um falso suplemento chamado… Academias do Sabre. A ideia era vender o peixe de um suplemento Shōjo (o termo japonês para os quadrinhos e animações dirigidos especificamente para meninas) na Constelação do Sabre. A piada funcionou e até hoje há quem lembre dela “pedindo”, por gozação, pelo livro.

Mas há quem tenha gostado do conceito e se frustrado com sua natureza de piada. Esse é um dos motivos pelos quais precisamos quebrar a mufa, a cada ano, por uma brincadeira inofensiva: se a ideia inflamar uma demanda, prepare-se para a dor de cabeça… e por isso nunca foi feito um falso anúncio do tipo “Brigada Ligeira Estelar para TRPG”*. Vamos nos perguntar: o Academias sustenta um suplemento do começo ao fim? Realisticamente… não, não sustenta.

Para começar, poucas animações do gênero dão atenção aos cadetes e seu mundinho — a ordem é ir direto para a ação com robôs gigantes. Em geral os protagonistas ou se descobrem pilotos em meio ao fogo cruzado, aprendendo a pilotar no tranco (vide Amuro Ray no seminal Gundam de 1979), ou já vem qualificados por preparo prévio antes de toparem com algo grande demais para ser ignorado (como Hikaru Ichijo no clássico Macross. Ele era piloto antes)…

A etapa de cadete foi fundamental para forjar os laços de grupo em Majestic Prince mas,
feito isso, queremos ver o time em ação. Por isso, essas fases não costumam ser longas.

Sim, é possível encontrá-los em séries de robôs gigantes — mas essa etapa costuma ser curta: ainda em Macross, semanas são cobertas em minutos graças ao narrador; em G no Reconguista, ela apenas estabelece o elenco e o protagonista pula fora; em Gunbuster, dura só um episódio; Em Majestic Prince, os personagens se graduam em poucos capítulos, com direito à despedida; em Voltron: o Defensor Lendário, eles são abduzidos logo no começo… e assim vai.

Candidate for Goddess (Pilot Candidate, nos Estados Unidos), se destaca como a rara exceção — este, sim, é um anime sobre cadetes e robôs gigantes — mas, cá entre nós… vocês não querem ver isso! Para falar a verdade, o melhor e mais bem-acabado exemplo sobre o assunto ainda é o episódio 8 da série animada estadunidense Sym-Bionic Titan (“Shadows of Youth”) — ou seja, nem mesmo um anime é (e isso diz muito sobre o interesse nipônico sobre o tema).

Sim, My Hero Academia é uma animação de super-heróis — mas seus personagens
seriam tão diferentes assim, em espírito, se fosse uma academia de pilotos?

Então para onde os mestres de jogo interessados nessa etapa podem correr? Sinceramente? Animes escolares e de esportes. Não, não estou brincando. Academias de combate não são tão diferentes de qualquer colégio interno a princípio. Vocês estão sendo obrigados a conviver com um monte de gente estranha, longe da segurança de suas famílias, em um ambiente com suas próprias regras sociais entre colegas… não há fuga. Formar panelinhas é uma autodefesa.

Conspirações sci-fi podem temperar isso. Um exemplo: na Constelação do Sabre, o treinamento mentalista é feito pelo Instituto Takemiya — aqueles com o desejo de ser pilotos terão o acompanhamento de um especialista e serão estimulados a misturar-se aos demais, não se agrupando entre si. Mas e se houver uma trama envolvendo seu uso? É um modo de fazer sua campanha se alinhar aos temas principais do cenário e não se tornar um festival de picuinhas.

A abordagem do detetive juvenil para sua ambientação fantástica favorita — pouco importando
se ela tiver bruxos ou pilotos de robôs gigantes — tende a tornar os combates pontuais.

Essa é a fórmula do detetive juvenil e ela tende a funcionar mas, nesse caso, os robôs gigantes serão só perfumaria e em um universo com eles, ninguém quer perder tempo se esgueirando em paredes e ouvindo segredos! Queremos ação… e aqui os animes de esportes nos darão uma mão! Há um simpático texto no Reddit sobre o tema AQUI (em inglês). É uma ótima abordagem, especialmente quando você não quer transformar sua academia em um antro de sordidez**.

No dia a dia, seus personagens estarão sempre treinando, aprendendo a lidar com seu futuro papel através de simuladores e exercícios físicos. Falamos de competitividade — ser o melhor piloto, ter melhores resultados, ter posição entre os colegas… e da formação de laços de companheirismo. Aqui podemos pensar no bordão da revista japonesa para garotos Shonen Jump***: Amizade, Perseverança e Vitória. O rival não precisa e nem deveria ser um inimigo.

A fórmula é simples: há metas a ser atingidas em conjunto contra algum tipo de oposição
e os personagens aprenderão a trabalhar juntos. No processo passamos a gostar deles.

Podemos pensar em “duelos”, competições internas e jogos de guerra. Os robôs podem contar com espadas de energia pura, incapazes de causar dano físico, mas similares aos efeitos de um paintball eletrônico: se o feixe de luz passar por uma área, o computador acusará o corte. Se um disparo de luz atingir o ombro, o braço do robô pode não mais se mover. Derrotas tendem a ser encaradas de forma pessoal e precedem treinos e aprendizados até a vitória.

E claro, cadetes tenderão a se meter em encrencas por conta própria, escondendo-se dos seus superiores e aprendendo algo fundamental para um oficial hussardo: se você não for pego, ninguém o punirá — e se os resultados forem espetaculares, todos estarão ocupados demais parabenizando sua iniciativa para se zangarem com pequenas irregularidades.

Para os interessados nesse tema, esperamos ter ajudado. Em algum momento, voltaremos a ele.

Até a próxima.

Ah, sim: você não reúne jovens com trajes colantes de piloto no mesmo
espaço e espera que os hormônios fiquem quietos, espera?

* Por favor, não insistam. Já teremos uma versão com suas próprias regras e ela vai surpreender vocês, podem acreditar.
** Bem, se você prefere os rumos de um
Shoujo Kakumei Utena na Constelação do Sabre, academias em guardas regionais ou academias privadas para a educação de nobres são mais adequadas — Nélson Rodrigues faz parte, o LSD é opcional. 😉
*** A mais vendida revista em quadrinhos do Japão, voltada para um público pré-adolescente masculino. Dela vieram blockbusters como
Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíaco — e, mais interessantes para este artigo Naruto (especialmente em sua primeira fase) e My Hero Academia. Sem falar dos quadrinhos de esportes, é claro — Slam Dunk é bacana para caramba!

Arte do topo de Simone Beatriz, como creditado no texto. Novamente, não leve tão a sério — nós não levamos. 😀

4 comentários

  1. Se é pra er shojo, negócio é subverter o gênero é adaptar Madoka Magica…ao invés de colegias, usa cadetes e ao invés de magia, coloca robôs gigantes. E os Proscritos são ex-cadetes que se deixaram dominar pela tristeza e ódio!

    E vamo começar a matar PC pra fazer os outros PCs sofrerem
    .

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