Dissecando o Ás Indomável

Em tempos de Top Gun: Maverick nos cinemas, é hora de lembrar o quanto o conceito do Ás Indomável é… velho. Não há muito a dizer sobre ele: é o piloto extremamente talentoso, mas totalmente impulsivo e cabeça-quente — tolerado, porém, por mostrar resultados espetaculares nos céus. Nesse sentido, ele é o esperado personagem-padrão em uma mesa de BRIGADA LIGEIRA ESTELAR… mas ele não é o único tipo de ás, na verdade. Nós veremos isso mais à frente. 

Esse tipo de personagem se beneficia de uma romantização dos pilotos, datadas do tempo da Primeira Guerra Mundial. O cinema moderno nos fez esquecer isso mas ele traz consigo toda uma iconografia europeia, com duelos no céu evocando o espírito de cavaleiros medievais em suas justas com aviões — e uma aura mítica de galanteria particularmente germânica. Filmes como o clássico Asas (1927), de William A. Wellman, ajudaram a sedimentar esse espírito.

O gênero dos robôs gigantes acabou se estruturando, a partir do real robot, via tropos de diferentes fontes, desde o romance ruritânio contrabandeado pela Trilogia de Nagahama e absorvido no primeiro Gundam, à ficção científica militar de um Robert A. Heinlein, passando pela estética do capa-e-espada espacial de Star Wars. Mas o grande esqueleto dramático do gênero veio das histórias de aviação à antiga, com duelos, rivalidades, orgulhos… e ases.

Se vocês assistirem Asas, prestem atenção quando vier
o confronto com um ás germânico… e um cavalheiro.

Generalizando, há quatro tipos de ases. Esmagadores são rolos compressores: atacam frente-a-frente. Pragmáticos evitam combate frontal, buscando as melhores posições para seus ataques. Atiradores são especializados em ocultação e ataque à distância. Defensivos são especialistas em evasão, deflexão e desgaste até aparecer uma abertura para o contra-ataque. Aliás, é surpreendente constatar: nos animes de real robot, a maioria dos protagonistas são…

Pragmáticos! Isso ocorre pelo gênero ter surgido como uma antítese conceitual de vários conceitos popularizados pelo super robot (como o discurso do Nekketsu*): a busca inicial por uma abordagem mais realista acabou tornando-os uma escolha até natural para combinar combates visualmente interessantes com o anti-belicismo inerente de boa parte dos seus roteiros. A ideia aqui não é a regra do cool, a ideia é ser dramático. Porém, se a teoria é essa…

Amuro Rei até começa com esse perfil de combate
mas rapidamente se torna um ás pragmático.

…a prática é diferente. Muitas dessas séries são anti-belicistas no discurso mas glamorizam o conflito com robôs gigantes cheios de estilo e combates empolgantes. Então chega de hipocrisia e vamos cair na real: estamos nessa pela diversão e queremos ver robôs esmagando robôs toda semana. Logo, Indomáveis são bons protagonistas: são (na maioria) esmagadores com traços de personalidade geradores de atrito e nos prometem cenas espetaculares de ação.

Isamu Dyson, de Macross Plus, é claramente o melhor e mais bem-acabado exemplo de Indomável do gênero (sejamos sinceros: a inspiração por trás dele é meio óbvia). É arrogante, impulsivo e em algum momento sua insubordinação vai levá-lo a uma corte marcial… mas não hoje. A escolha de um indomável como protagonista — além da ausência de uma idol convencional, é claro — certamente foi crucial para fazer de Plus o melhor exemplar da franquia Macross.

Pode reparar: Isamu Dyson — assim como o seu oponente Guld — é o
único protagonista de um Macross especializado em combate frontal.

Nesse sentido, é sintomático perceber: o grande indomável da franquia Gundam, tradicionalmente avessa a eles como protagonistas, é Judau Ashita. É o mais voltado ao combate direto no cômputo geral dos personagens principais (e respondeu a tentativa de Bright Noah de tratá-lo na base do tapa como fez com os pilotos anteriores, como uma forma de deixar claro: ele não estava ali para se dobrar às regras do jogo**. Mais parte do clichê é impossível).

De resto, podem reparar: os dois outros indomáveis no centro das atenções em Gundam pertenciam a séries de grupo: Setsuna F. Seiel de Gundam 00 e Chang Wufei de Gundam Wing. O primeiro tem essa característica na primeira temporada — aliás, todos os Gundam Meisters pertencem a uma dessas categorias de ases*** — mas amadurece e, com o seu reposicionamento na segunda temporada, muda seu estilo de lutar: ele se torna mais pragmático… e menos suicida.

Gundam Shenlong (de Gundam Wing): até pela natureza de suas
armas, ele é especialista em combate corpo-a-corpo.

Quanto à Wufei, é interessante notar: o papel de indomável do bando veio a cair no colo do personagem narrativamente mais à parte da série. Claro, esse quinteto forma uma espécie de não-time (o maior problema de Wing) mas isso só pontua como Gundam não costuma privilegiar tipos assim, reservando-os muitas vezes para adversários****. Fora dessa franquia, Dancougar é outro exemplo da mesma abordagem: o Indomável está lá para ser desconstruído*****.

Mas quais são as características distintivas de um Indomável? O que define um personagem como este de forma geral — tanto em combate quanto fora dele?

Frente-a-Frente: o elemento definidor do Ás Indomável. Em combate ele conta com as superioridades do piloto e das armas… e parte para cima do inimigo.

Regra do Cool: o glacê do estilo é fundamental. Algum elemento, estético ou comportamental, precisa estar presente para vender o pacote como… maneiro.

Regra do Cool: Imite o Tom Cruise
e faça sucesso com as mulheres.

O Melhor: ou pelo menos muito bom. Ele precisa disso: vai acabar sob uma corte marcial se seus atos impulsivos não mostrarem resultados espetaculares.

Insubordinação: ele costuma tomar as rédeas do combate e talvez ignore ordens se for preciso. Por essa razão, ele pode fazer desafetos desnecessários.

Amadurecimento: quando um indomável passa a comandar pilotos, eles tendem a perder a atitude impulsiva. Normalmente se tornam pragmáticos em combate.

É claro, essa regra é fluida. Voltando a Wing, basta lembrar de Zechs Merquise: apesar de comandar homens, ele em nenhum momento perdeu atitude: entrava em ação para varrer o chão com os inimigos, atraiu os protagonistas para duelos… e sim, é possível ser o Ás Mascarado e o Ás Indomável ao mesmo tempo com a combinação de elementos e atitude corretas — mas certamente seria um personagem do mestre, graças ao número de pontos necessários para tanto.

Bom, essa é outra forma de
se seguir a regra do
cool…

Em BRIGADA LIGEIRA ESTELAR, a apropriação do conceito de Hussardo criou um pressuposto atípico: uma guarda aonde indomáveis são desejáveis******. Mas embora questões como nível tecnológico e “montaria” façam diferença, a atitude de um hussardo de capa-e-espada para um piloto de caças intempestivo, de acordo com o clichê, não é tão diferente assim. Fazer uma correlação entre os dois princípios é bastante simples e encaixa como uma luva no cenário.

E lembrem-se: todo tipo de ás é possível em sua campanha de jogo. Na verdade, talvez seja até interessante ter os quatro em um mesmo grupo! Isso combina inclusive com as diferenças entre os papéis dos personagens — um bem-intencionado pode muito bem ser um defensivo por natureza, um solucionador pode ser um atirador, uma outra mão (para um ponto impulsivo) pode ser um pragmático… em um time, ninguém faz nada sozinho!

Até a próxima — e divirtam-se!

* Nekketsu: o sangue quente, a paixão furiosa, o entusiasmo ansioso, as “lágrimas masculinas”, a busca por algo maior — justiça, honestidade, companheirismo, superação… a vontade intensa capaz de mover alguém ao extremo de suas capacidades, enfim. É um conceito profundamente ligado aos mangás shōnen, inclusive.
** Isso é profundamente ligado aos conceitos de Reconstrução embutidos em Gundam ZZ. Há uma rejeição ao militarismo nestes protagonistas, como uma constatação de que o caminho das séries anteriores leva sempre ao mesmo resultado — há uma mensagem simbólica aos espectadores no fato de Ashita não deixar o tapa de Noah barato como ocorreu com seus antecessores, podem reparar.
*** Podem conferir: Setsuna (na primeira temporada) é o esmagador, Allelujah é o pragmático, Lockon é o atirador e Tieria é o defensivo.
**** Como o Graham Aker do próprio Gundam 00, por exemplo.
***** Dancougar
é um curioso super-robot com a abordagem mais sóbria de um real robot. O protagonista Shinobu Fujiwara tem todo o perfil do protagonista cabeça-quente e impulsivo celebrizado pelo primeiro, mas é enquadrado pelos limites realistas do último. A ideia é mostrar que, em um contexto mais crível, um personagem assim precisa baixar a crista em algum momento se quiser continuar pilotando.
****** E esse, pasme, é um exemplo vindo da vida real (ver “O que é um Hussardo?” AQUI).

NO TOPO: Isamu Dyson, de Macross Plus — o exemplo mais bem acabado do tropo; Judau Ashita, de Gundam ZZ — certamente o piloto mais “físico” da franquia e discutivelmente o mais rebelde; Hikaru Ichijo de Macross (Rick Hunter em Robotech) — ele vai perdendo essas características durante sua evolução e amadurecimento na série, mas elas estão lá principalmente no começo; Setsuna F. Seiei, de Gundam 00 — com o agravante de (compreensivelmente) não ser muito bom da cabeça. Na segunda temporada, entretanto, ele amadureceu e assume uma posição de liderança, e com isso os ataques frontais são substituídos por técnicas de combate mais pragmáticas; Hayate Immelman, de Macross Zero — embora ele não tenha o perfil de esmagador e só se torne um ás quando sincronizado aos poderes de Freyja Wion (não nos peçam para explicar isso aqui, por favor), sua atitude o qualifica para a posição — e o fato dele ser mais virtuose do que técnico em combate só ajuda; Zechs Merquise, um exemplar bem claro do Indomável “amadurecido”: tendo o comando de forças inteiras, ele precisa manter uma aura de liderança e segurança. No entanto, ele comete vários atos no mínimo pouco pensados ao longo da série, como atrair os protagonistas para duelos; Van Fanel, de Visions of Escaflowne: é interessante notar que essa série tem como pilotos principais dois indomáveis, representando suas duas vertentes. Fanel é o jovem impetuoso, pronto para passar por cima do oponente sem pensar. Garrod Ran, de Gundam X — outro piloto mais impetuoso e com técnicas frontais de combate na maior parte do tempo. Allen Schezar, de Vision of Escaflowne — o indomável amadurecido, mostrando ser capaz de liderar homens, mas ainda um atacante frontal, disposto a riscos… e quando seu sangue ferve, ele não deve nada à Fanel em impetuosidade. É importante lembrar o quanto temas de cavalaria clássica fazem parte da série e faz sentido eles serem assim quando seus não tão dignos adversários cobrem outros tipos de ases; Io Fleming, de Gundam Thunderbolt: outro indomável pra lá de claro, talentosíssimo, esmagador e viciado em adrenalina; Kallen Kozuki de Code Geass — esmagadora? Confere. Agressiva e talvez competitiva na personalidade? Confere. É interessante notar: na mesma série, Suzaku Kururugi é outro esmagador em combate, mas como ele é um soldado muito dentro da caixinha, não é um indomável; Domon Kashuu de G Gundam — é claro, aqui a lógica é outra e o tema “insubordinação” não se qualifica… mas Domon é um claro esmagador (reparem: dos seus companheiros, três dos cinco não o são) e tem o espírito para isso; Keith, de Voltron: o Defensor Lendário — de sangue quente, teimoso e o melhor piloto da série. Curiosamente, ele passou da linha antes mesmo de se graduar, sendo expulso da academia quando a série começa. Chibodee Crocket de G Gundam: outro cabeçudo, outro esmagador. Kamina, de Tengen Toppa Gurren Lagann… o próprio nekketsu encarnado, sem medo de mergulhar cara a cara contra o adversário; Klimton “Klim Nick” Nicchini, de G no Reconguista, um caso curioso de “Ás Indomável de araque” — ele cumpre os tropos e acredita ser um gênio da pilotagem mas, na verdade, nem de longe ele tem o nível necessário para isso e seu apelido de “Tenente Gênio”, dado pelos colegas, é mero deboche; Ryusei Date, de Super Robot Wars: Original Generation — ele leva tempo para isso (na série Divine Wars), mas chega lá; Desil Galette, de Gundam Age — uma desconstrução do tropo. Esmagador, competitivo… mas para começar, ele nos é introduzido como uma criança mimada (mais clara a mensagem, impossível). Quando adulto, é visto como um bostinha, nunca foi além da patente de piloto (mesmo sendo um ás) e, quando chega o seu destino… ele é patético; Noriko Takaya, de Gunbuster — leva dois terços da série para ela evoluir de menina chorona até chutadora de bundas, mas quando chega a hora, UAU; e, para terminar, Edward Harrelson de Gundam Seed Astray, um curioso exemplo da dicotomia “Senhor Andante/Senhor Volante” (se você for velho o suficiente vai pegar a referência): fora do cockpit, um soldado exemplar, educado e tranquilo, amigável com todos e com um histórico medíocre como piloto de caças… mas dentro de um robô gigante, um esmagador extremamente agressivo e com sangue nos olhos, ao ponto de sempre voltar coberto do óleo dos robôs por ele destruídos e ganhar o apelido de “Ed, o estripador”.

DISCLAIMER: todos os personagens, nomes e situações descritas pertencem a seus respectivos proprietários e as imagens estão aqui para fins jornalísticos e divulgacionais. Dá um desconto, gente, tem personagem demais por aqui hoje e as notas de rodapé já estão gigantes dessa vez!

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