Por que Mecha?

Há uma certa prevenção de alguns contra o gênero mecha (ˈmɛkə, abreviatura de mechanical, inglês para mecânico. Pronuncia-se Méca). Eu mesmo tento evitá-lo em nome da compreensão imediata do leitor casual — alguns já devem ter percebido minha preferência por “robô gigante”, embora ele não abrigue necessariamente todo o escopo conceitual do termo. Mas isso nunca deve ser confundido com vergonha, rejeição ou negação do termo (Titanfall… cof… cof…).

A bem da verdade, o mecha como gênero tem seus detratores fiéis. Na época do lançamento original de BRIGADA LIGEIRA ESTELAR, ainda para 3D&T Alpha, algumas vozes se levantaram contra o cenário mas no final ele se estabeleceu: seis livros e uma história em quadrinhos vieram e ele terá a honra de abrir a nova linha de OGLs do sistema em sua próxima edição. As hostilidades diminuíram e há quem reconheça nosso trabalho, mesmo não apreciando o gênero.

Recentemente uma amiga minha — a Valéria, do blog Shoujo Café — publicou, graças a uma imagem plantada na internet, uma defesa contra algumas acusações injustas contra o gênero. Ela pode ser lida AQUI. Além disso, na época das hostilidades abertas, cheguei a ler um “eu sou contra os mechas!” Por isso estou escrevendo este texto e quero dedicá-lo a quem tem uma relação algo incerta com ele. É hora de varrer alguns mitos e responder: por que mecha?

Se preparem: este é o texto mais longo que já fiz para este blog.

1) O que é mecha? Em miúdos, qualquer grande super-máquina pilotável. Embora o senso comum associe o termo aos robôs gigantes, ele pode ser muito amplo analisando friamente. Por essa definição, uma série como Patrulha Estelar — com um navio espacial disparador de rajadas monstruosas de energia — é mecha em teoria e, importante lembrar, uma das grandes pedras fundamentais para o gênero foi a exibição, no Japão, da série… Thunderbirds. Sem exagero.

Da mesma forma uma obra como Crusher Joe é exemplar no uso de grandes maquinários — sem a presença de robôs gigantes (claro, há um daqueles modelos bípedes mas eu pensaria duas vezes em chamar aquilo de robôs). Entretanto, de modo geral, os robôs como os conhecemos se tornaram a grande face do gênero e como é narrativamente conveniente tratá-los não como um tipo de mecha mas como “OS” mecha… é melhor manter assim. Vocês entenderam. Isso já basta.

Sim, temos essa coisa ao invés de robôs gigantes, mas… sim, isso tecnicamente é mecha.

2) Por que ele foi e é tão importante? Por ajudar no amadurecimento da animação japonesa. Antes, ela era vista apenas como uma propaganda de vinte e seis minutos para brinquedos mas, ainda na era dos super-robôs, o sinal começou a ser avançado: muitos de seus criadores eram leitores de ficção científica, tanto da Era de Ouro de Asimov e Clarke quanto da New Wave de Moorcock, Zelazny e Le Guin — estes chegando à época no Japão. E isso foi crucial.

Gundam nasceu da influência do Tropas Estelares de Heinlein. Macross tomou conceitos da pentalogia dos Gigantes de James P. Hogan. Os psiônicos dos animes oitentistas devem muito a Slan, de A. E. van Vogt — e tudo isso ancorado pelas garantias comerciais do gênero: enquanto rendessem licenciamentos e não alienassem o público-alvo, os autores teriam permissão para ousar. Mesmo hoje eles trazem consigo um legado importante para a animação japonesa.

Zeta Gundam: risco narrativo sustentado por uma estrutura comercial.

3) Histórias de mecha são só luta-livre entre robôs? NÃO, de jeito nenhum! O gênero mecha tem uma qualidade análoga com o gênero dos super-heróis: eles absorvem tudo. Há um artigo neste blog mostrando diferentes vertentes da ficção científica para os jogadores de BRIGADA LIGEIRA ESTELAR (AQUI)… mas é possível achar histórias com robôs gigantes de todo o tipo (fantasia em Dumbine, ucronia em Kishin Corps, esportes em Basquash… o cardápio é farto).

Igualmente, o gênero passa por todo tipo de abordagem: do drama à comédia, do thriller político ao romance adolescente — às vezes na mesma série (Code Geass, alguém?). A amplitude da franquia Gundam é notável: famosa por estabelecer o padrão clássico do real robot, suas séries oscilam do leve ao brutal. Por isso há sempre alguém a dizer “eu não gosto de mecha, mas gosto da série tal”: o gênero é maior do que a imagem preestabelecida em sua mente.

Eu entendo. De verdade.

4) Mechas são só um veículo para vender brinquedos? Bom, robôs gigantes geram cenas de impacto, grandes combates e são legais de se olhar. Eles são o cool, enfim — e o cool vende o peixe — mas nunca foram um mero veículo. Na verdade, eles viabilizam comercialmente o trabalho dos autores. Zeta Gundam talvez seja o melhor exemplo: uma série sombria e violenta que discute a ligação entre as guerras e os interesses privados (via Anaheim Electronics)…

…mas, mais ou menos a cada dois episódios, era apresentado um modelo novo para os colecionadores de Gunplas. Acreditem: esses modelos de plástico bancaram a ousadia de se fazer uma série como essa em 1985 — e deu certo. E caso você seja um fã de mangás shōnen de luta: o potencial em licenciamentos de caixas com armaduras mitológicas transformáveis não deve ter contado, nesse mesmo ano, para a aprovação editorial de um mangá muito conhecido nosso?

Respeitem esses brinquedinhos — sem eles, muita gente boa não faria o que fez.

4) O piloto fica protegido dentro do mecha enquanto outros se arriscam de verdade nas lutas corpo a corpo? Pergunte isso a quem pilota um caça, ou um tanque em combate, e ele o esmurrará merecidamente. A título de exemplo, os tanques M4 Sherman eram apelidados de “Ronson” na Segunda Grande Guerra (o nome vem de uma marca de isqueiro cujo slogan era “Acende primeiro a toda hora”) mas, mesmo se fosse o melhor dos tanques, ele não estaria protegido.

Na verdade, é fácil ser valente quando se é virtualmente à prova de balas e explosões graças ao poder do Ki, Cosmo, Chakra, Reiki… o que seja. Pilotos de mecha são tão mortais quanto eu e você — basta lembrar do clássico exemplo de Roy Fokker (Macross), morto por estilhaços na cabine do próprio caça. Os poderes mentais associados ao gênero também não fazem milagres na hora do aperto — salvo em alguns exemplos muito apelões. Os riscos são maiores.

“Eu não gosto de mecha porque os personagens ficam seguros na sua cabine nha nha nha”.

5) Mecha é um gênero machista? Não mais do que a própria sociedade de onde vieram essas produções. O gênero está cheio de exemplos progressistas e exemplos machistas — às vezes em uma mesma série (a Valéria em seu artigo pontuou exemplos dignos de nota) — mas, observando bem, isso pode ser dito da animação japonesa como um todo. Um detalhe: mesmo entre mangás e animes shōjo, voltados para meninas, é fácil apontar obras assustadoramente machistas.

Talvez o ponto seja o fanservice mas, novamente, não há nenhum segmento isento dele. Não dá para fugir da sociologia. Se a sociedade japonesa mudar, isso aos poucos será visível em sua própria produção cultural. Por ora só precisamos levar em conta: nós não somos o seu público primário. Esses materiais foram feitos para o seu mercado interno e somos apenas um… bônus. Essa acusação não pode ser colada a um gênero narrativo. A nenhum gênero, aliás.

Sim, aqui tem um universo interessante. Personagens com potencial. E fanservice.

6) Mecha é absurdo, infantil, pouco prático e jamais funcionaria em um combate real. Quem os leva a sério quando jatos e helicópteros são superiores? Esse é especial porque já fui amolado, cara a cara, por alguém com um discurso do tipo e sempre achei curiosa essa seletividade na suspensão de descrença: quem fala isso não se incomoda com os absurdos de outros gêneros, da fantasia medieval aos super-heróis. Aqui eu poderia dar uma resposta imensa…

Mas vamos logo ao ponto? Todo gênero tem seu pacto de suspensão da descrença com o leitor. Um robô pilotável com vinte metros de altura me parece mais crível do que a possibilidade de um zé-ruela desajeitado (e sabidamente heterossexual) ser aceito em uma casa com cinco meninas bonitas e todas se apaixonarem por ele — mas esta última é a condição para a existência de todo um subgênero. O mesmo vale para tudo na vida. Aceite ou vá ver outra coisa.

Mecha não tem nada a ver com a realidade. Tem a ver com ser legal.

7) Por que ver, ler ou — no caso dos RPGs — jogar mecha? Bem, compare cinco séries aleatórias de mecha à sua escolha (evite repetir franquias). Provavelmente todas serão mutuamente diferentes em conceitos, objetivos e fatores de identificação. Se você gostar de mais de uma série dessa lista, isso ocorrerá por razões distintas entre si: o mecha como gênero é tão amplo quanto a própria ficção científica e suas tramas não precisam ser mais do mesmo.

Muitas vezes os backgrounds usados para a existência desses construtos são também veículos para a discussão de temas interessantes, importantes e atípicos. De geopolítica a cibernética. Do trans-humanismo a engenharia social. Da bioética a imortalidade digital. Todos são temas passíveis de ser veiculados em uma história de mecha. Há muito a oferecer. Há muito a descobrir. Sempre.

E tudo sempre fica melhor com robôs gigantes, é claro.

Até a próxima.

No topo: Super Robot Wars Original Generation. Esse não tem realmente nada a dizer, mas o faz com estilo! 😀

2 comentários

  1. ” Um robô pilotável com vinte metros de altura me parece mais crível do que a possibilidade de um zé-ruela desajeitado (e sabidamente heterossexual) ser aceito em uma casa com cinco meninas bonitas e todas se apaixonarem por ele — mas esta última é a condição para a existência de todo um subgênero.”

    Hahahahahahahahahaha!!! Muito bom, Lancaster! Melhor ainda: que ÓTEMO!!!

  2. É curiosa a implicância com mecha quando só essa temporada saíram mais 6 animes de “pessoa aleatória é mandada para mundo de fantasia” e ninguém questiona a sanidade dos deuses que tentam resolver seus problemas jogando otakus japoneses neles. Ahahahahahaha

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