Academias do Sabre: Usando o Clichê

Não, esse não é um artigo da série “Dissecando”, mas eu não resisti a abri-lo com essa imagem acima. Nenhuma delas pertence a uma série de robôs gigantes, então por que elas estão aqui? O que as une? É justamente a possibilidade de se separar as personagens em questão em grupos aonde todos são a mesma personagem*, com uma variação discreta aqui e ali para não dar na cara, completando uma cartela de bingo. Porém, na sua mesa de RPG… está tudo bem.

No último artigo dessa série, me voltei ao subgênero do subgênero School Battle Shōnen** para encampar campanhas mais adequadas ao tema deste blog por um motivo simples (já mencionado em artigos anteriores): o gênero dos robôs gigantes raramente se focou nisso por razões concretas e, no máximo, academias são uma etapa provisória antes da ação começar de verdade. Nosso esforço aqui é fazer uma campanha de cadetes render. Aqui as regras são outras.

E muito é focado em interação pessoal, nas hierarquias sociais formadas entre estudantes e em clichês arquetípicos a se repetir infinitamente em diferentes séries (inclusive visualmente). E isso, mesmo sendo particularmente irritante ao ser visto de forma idêntica em diferentes séries, é bem conveniente na mesa de jogo. Personagens-clichê são úteis para transmitir conceitos imediatos sem grandes explicações. Eles só não deveriam virar uma muleta.

Cabelo rosa? Confere! Nobre com nome pomposo?
Confere! Temperamento explosivo? Confere!

A Princesa Feroz

“Como ousa? Seu tarado! Tarado!”

Quem é ela? Usualmente uma donzela de origem nobre, cabelos cor-de-rosa e de humor muito oscilante, alternando entre espasmos de mau humor e de doçura (sim, vocês conhecem o clichê***). Na maioria das vezes tem um nome pomposamente europeu para evidenciar suas origens nobiliárquicas. Costuma ser uma excelente combatente (mas não tanto quanto o protagonista). É orgulhosa mas, tendo sua amizade e lealdade conquistada, ela estará com você até o fim.

Como Pode ser Útil? Além de ser um modelo prático de personagem (inclusive como personagem pronto para eventos), a princesa feroz sempre traz ganchos de trama: ela pode ter algum problema ou segredo do passado a ser resolvido com a ajuda de seus colegas, pode ser uma princesa caída, ser um alvo de assassinos e sequestradores, tentar fugir de um casamento indesejado — ou ter uma missão pessoal impossível de ser cumprida sem a ajuda de todos vocês.

Exemplo para sua campanha de Brigada Ligeira Estelar: Roberta Verônica von Hötzendorf de Wertheimstein. Sempre chamada por seus dois primeiros nomes como uma personagem de novela mexicana, Roberta Verônica é uma princesa menor de Bismarck**** e uma rara esper dentro da nobreza. Se alistou na Brigada para não ser usada pela família mas, por não ser uma esper comum, ela atrai inimigos políticos e gente inescrupulosa interessada em suas capacidades.

Sim, esta é a diretora de uma academia
e também uma engenheira genética!

O Orientador Estranho

“Se você aceitar essa missão, podemos salvar suas notas escolares.”

Quem é ele? Normalmente, alguém com um traço totalmente atípico para um diretor ou professor. Talvez seja mais jovem do que deveria, ou tenha elementos visuais exóticos, ou um fator sabidamente perigoso… ou apenas um comportamento fora da curva. No entanto ele tem planos para os personagens: Pode conhecer os segredos ocultos de todos, os usar como times para missões secretas (ele pode tê-los reunido!) e quem sabe lhes faça alguma oferta perigosa.

Como Pode ser Útil? Sua função é oferecer uma desculpa para os personagens terem tanta liberdade de ação. Ele está em alguma posição de poder na hierarquia e não apenas oferece linhas de trama aos jogadores mas também encobre suas irregularidades. Se nossos heróis perdem tempo com duelos ou mexem aonde não deveriam, ele pode muito bem ajudar a evitar o pior para todos. Por outro lado, ele também pode punir os personagens em caso de desobediência.

Exemplo para sua campanha de Brigada Ligeira Estelar: Comandante Matta-Machado. Apelidado de “Velho Buldogue Campeiro” porque… ele é um velho buldogue campeiro, literalmente! Enorme até para os padrões dos Familiares, e tendo uma longa carreira na Brigada Ligeira Estelar, com ligações profundas nos serviços de inteligência, não se engane com seu temperamento bonachão: é bem respeitado e perigoso, ocultando segredos e projetos secretos do Império.

Olá, irmãozi… ahn… acho que nós estamos
indo um pouco
longe demais, não?

A Irmãzinha

“Ei, maninho… quer ir comigo à sorveteria… só nós dois?”

Quem é ela? Uma das suas colegas de academia, não é necessariamente a irmã de ninguém (embora isso aconteça), talvez só adotando seu alvo de acordo com as circunstâncias. Ela é adorável, bonitinha (usualmente de cabelo branco ou azul-claro)… e uma empata-fXXX pegajosa e manipuladora, surgindo nas horas mais inconvenientes e virando bicho quando contrariada. Elas sempre tem um traço oculto muito errado e tendem a entrar em fúria durante o combate.

Como Pode ser Útil? Ela é um ótimo gancho de trama por ser manipuladora e ter sempre uma agenda própria. Normalmente ela tem em mente os melhores interesses dos protagonistas (ou melhor, de um protagonista)… mas não necessariamente de uma maneira aceita por eles, envolvendo a todos em alguma encrenca cabeluda. Importante: ela nunca é uma antagonista direta, caminhando no duro balanço entre ser uma aliada incondicional e uma arma fora de controle.

Exemplo para sua campanha de Brigada Ligeira Estelar: Iliena Sanz-Arcoverde. Meia-evo de Alabarda, ela se destaca pela aparência de apelo juvenil e sensual*****, além de saber enrolar todo mundo com palavras doces. Mas não se iludam: ela é uma ciborgue com implantes invisíveis experimentais, roubados da BRISCA pelo seu pai… algo de cuja revelação ela tem pavor. E ele, mestre-de-armas em Trianon, fez da filha uma piloto e espadachim perigosíssima!

A propósito: essas personagens são via de regra
Um osso duro de roer para os personagens.

É bom dizer — raramente esses arquétipos vem completos. Talvez sejam mais constantes no caso do Orientador Estranho, cuja posição mais distante permite mais variação dentro da mesma premissa, mas no geral só se finge um diferencial: se o clichê pede complexos quanto ao físico, alguma terá um corpo matador. Se a o clichê pede a nobreza, alguma delas há de ser “menos nobre”. Há várias formas de variar um detalhe para oferecer a ilusão da diferença.

Alguns personagens-clichê permitem uma expansão de elenco: no caso da Irmãzinha, ela também funciona adjunta a outro coadjuvante, movendo a trama ao conduzir os protagonistas a esquemas nos quais, normalmente, eles não se envolveriam por si sós. E alguns elementos podem ser até subvertidos******. Mas estes são só exemplos e possibilidades. No final, o importante sempre são os protagonistas: coadjuvantes podem cativar… mas são escadas, lembrem-se!

Para encerrarmos, um último lembrete: estes não são os únicos estereótipos de personagem presentes no gênero. Há vários exemplos interessantes, na verdade, mas não queremos tornar essa coluna uma lista regular de tipos de personagem. O importante é criar uma dinâmica na qual os protagonistas sempre estejam em movimento! Parte do papel do coadjuvante é justamente este: estender o tapete para os protagonistas caminharem.

Até a próxima e divirtam-se!

Apenas um robô gigante aleatório, para lembrarmos
do tema principal deste seu canto na internet.

* Um exercício interessante é montar um bingo para cada arquétipo e a cada desenho do gênero, ver se o clichê bate. Cabelo rosa? Confere. Nobreza? Confere. Temperamento explosivo? Confere. E por aí vai. Você vai se divertir, mas não façam disso um drinking game, por favor. É perigoso.
** Até onde sei, o termo foi cunhado pelo fandom e não há muita oficialidade nele, mas School Battle Shōnen — “quadrinho/animação de batalha para garotos em uma escola” — vai direto ao ponto e nos serve muito bem. Na verdade, a coluna “Academias do Sabre”, vem caminhando nesse sentido: um School Battle Shonen com robôs gigantes é possível? A resposta é sim!
*** Tsundere (ツンデレ) é um termo japonês para uma personalidade inicialmente agressiva — mas alternada com outra mais amável. Em Brigada Ligeira Estelar Alpha, foi cunhada a vantagem Negação Pessoal (ver AQUI) para lidar com isso.
**** Lembrando desse detalhe: Em Brigada Ligeira Estelar, nobres com relações de sangue com linhas regenciais e imperiais podem ostentar esse título, mesmo não tendo o poder correspondente a ele. Tivemos exemplos disso nas nobrezas Russa e Italiana. No fundo, é apenas um gancho conveniente para dar acesso ao título de “Príncipe” ou “Princesa” aos personagens jogadores ou a coadjuvantes de sua campanha.
***** Não olhem para mim. Os japoneses fazem isso todo o tempo — e pensando bem, a publicidade também, em qualquer parte do mundo. Eu seria intelectualmente desonesto se ignorasse a existência desse componente no arquétipo. Fetichismo é parte desse imaginário, não nos iludamos.
****** Por exemplo: em Absolute Duo, a co-protagonista Julie Sigtuna tem vários elementos da irmãzinha, apenas despida de seus aspectos mais difíceis e negativos (e mesmo assim, ela tem embutido o elemento de fúria descontrolada em combate). Compare-a, por exemplo, com a Terminus Est de Bladedance of the Elementalers ou, pior, com a Shizuku Kurogane de Rakudai Kishi no Cavalry. Isso é mais perturbador ainda!

DISCLAIMER: Rakudai Kishi no Cavalry pertence à Riku Misoria, via SILVER LINK.Nexus; Gakusen Toshi Asterisk pertence à Yū Miyazaki, via A-1 Pictures; Seireitsukai no Blade Dance também pertence à Yū Miyazaki, via TNK Anime; Kinsou no Vermeil pertence à Kōta Amana e Yōko Umezu, via Staple Entertainment; Kuusen Madoushi Kouhosei no Kyoukan pertence à Yū Moroboshi, via Diomedéa. Todos os direitos pertencem a seus respectivos proprietários. Imagens para fins jornalísticos e divulgacionais, sem infração de direitos autorais.

Agradecimentos ao Daniel e ao Marcel pelos comentários de útlima hora.

4 comentários

    1. Eu diria que assisti vários animes do gênero (meio forçado, a princípio) e passei a gostar dele no geral apesar dos problemas em todas essas séries. Até agora, não apareceu AQUELE anime de cair o queixo e ser lembrado por gerações. O que me chama a atenção, entretanto, é a similaridade em todos eles: todas essas cinco são a mesma personagem, com um detalhe ou outro fora da curva para evitar processo (porque evitar dar na cara, não dá mesmo). Eu achava isso irritante, mas agora acho até engraçado.
      O outro motivo pelo qual estou usando imagem dessas séries é simples — e eu expliquei isso em um dos primeiros artigos dessa série: o gênero robô gigantes simplesmente não costuma focar nesse tema em geral. Em geral, ou os personagens entram no jogo e precisam se virar no tranco (como em Gundam) ou seu treinamento é descrito muito brevemente para colocarmos um robô nas suas mãos e seguirmos adiante (como em Macross). Então são raras as referências úteis no gênero.
      Mas muita gente quis o Academias do Sabre, que surgiu como uma brincadeira de 1º de Abril (um “suplemento shōjo”, e não estou indo por esse caminho nos artigos). Por isso o School Battle Shōnen nos traz as ferramentas narrativas necessárias para uma campanha de academia em qualquer lugar — e, esperamos, em Brigada Ligeira Estelar. Quem sabe um dia o suplemento não ganha vida? 🙂

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