Mudanças de Nomes

Essa é uma decisão polêmica e a estou compartilhando com vocês, leitores. Talvez ela possa ser revista mas eu não poderia, a essa altura, seguir adiante e deixar essa questão em aberto. No lugar de “Raça” ou “Vantagem Única”, teremos uma categoria batizada de Origem. E duas origens serão rebatizadas: os Animais de Companhia serão conhecidos como Falantes e, como o termo original nunca foi muito popular, essa decisão não será tão traumática assim…

A segunda mudança será para os Mentalistas. Embora ele me soe redondo no sentido de explicar muito a natureza e origem desses poderes — mentais, ora — eles serão conhecidos de agora em diante como… Espers. Esse nome esteve na minha cabeça desde o início e é profundamente ligado à história da ficção científica nos animes. Ele foi cunhado originalmente pelo escritor Alfred Bester no conto Oddy and Id e em obras como Tiger, Tiger e O Homem Demolido.

O termo veio do inglês — ESP é acrônimo de extrasensory perception — e designa um pacote de capacidades psíquicas como intuição, telepatia, psicometria, clarividência, precognição e poscognição. Embora ele não seja tão popular assim em sua língua de origem (podem reparar: Psychics — Psíquicos — ou até mesmo Psiônicos conseguem ser mais comuns, até por sua natureza auto-explicativa), no Japão ele chegou bem cedo — e se alastrou por vários motivos.

Um dos exemplos dessa popularização rápida do termo: o seriado Kōsoku Esper
(“Esper” no Brasil), de 1967. Se você lembra disso, você está muito velho.

O maior deles é seu uso como alegoria tanto da reconstrução japonesa, com poderes adormecidos despertados em momentos de crise para salvar a todos, quanto do trauma causado pelas bombas de Hiroshima e Nagasaki, aonde o controle do poder leva à destruição. Dependendo do ângulo eles são uma bênção, uma maldição ou, mais provavelmente, os dois… e sua onipresença na cultura pop nipônica não foi de se espantar. Parece uma escolha óbvia de nome, certo?

Na verdade não. Eu realmente queria me afastar do inglês desde o começo — por razões conceituais. A nomenclatura de cavalaria usada mundo afora, entre o final do século XVIII e começo do século XX, foi herdada do francês (Hussard, Lancier, Dragon, Cuirassier e Chasseur) e Brigada Ligeira Estelar puxou isso para si. Esper me trazia o espectro do Extrasensory Perception original — e me trouxe outra questão: eu não estaria sendo… otaku sem perceber?

“Não! Não pode ser! Isso não…
AAAAAAAAAAAARGHHHHHHHHH!!!!!!!!”

É horrível, sei, mas temi me aferrar a um preciosismo desnecessário (mesmo não sendo um termo nipônico) e bater de frente contra a regra pessoal de evitar o inglês gratuito e sacrificar o auto-explicativo em prol de algo de conhecimento mais restrito… em suma, coisas sempre criticadas por mim. Assim, deixei Espers de lado e apelei para “Mentalista”. Não sei mais como a ideia veio, mas tinha esse apelo prático: são poderes vindos da mente, afinal.

Com o tempo eu fui me arrependendo disso. Primeiro por ter aberto uma exceção à própria regra na criação dos Tepeques, derivados do inglês Techpack — bastou o expediente de “derivado de uma língua morta”. Segundo, por um evento fora do meu controle: a popularização da palavra mentalismo em termos completamente distintos do cenário (de observação, dedução e manipulação, com vários livros sobre o tema nas megastores), graças à série exibida no SBT.

“Alguém que usa acuidade mental, hipnose ou sugestão. Um manipulador
de pensamentos e comportamento”.
Não alguém com poderes psiônicos!

Isso me fez pensar na possibilidade de ter tomado uma decisão errada ao fugir dos meus instintos. Foi um sentimento crescente mas dei o dano como feito, segui adiante… e tudo teria permanecido assim se o Tormenta 20 não tivesse alterado os nomes de algumas raças. Isso foi me encorajando, até mesmo por não ser o único problema desse tipo no cenário: Animais de Companhia nunca foi um termo muito bem recebido pelos jogadores — nem uma escolha ideal.

Com isso decidi: se eu mexesse nos mentalistas, mexeria neles também. Infelizmente o melhor nome para eles, para mim, sempre foi Transgênicos — por serem animais alterados geneticamente — mas isso sempre foi vetado por sua associação com vegetais e… eu não discordo. No fim, Animal de companhia sempre foi um nome provisório cuja resiliência veio da falta de uma escolha melhor. Daí o Falante. Pelo menos ele é auto-explicativo: são animais falantes!

E por favor, não venham sugerir “falador” como opção a Falantes!
Trocar seis por meia dúzia não é uma opção de verdade!

Ortodoxamente esta será a primeira edição de BRIGADA LIGEIRA ESTELAR RPG, embora o cenário tenha começado no 3D&T Alpha. Se eu não mexesse agora, não o faria mais… e conversei com o Guilherme Dei Svaldi da Jambô. Mentalistas tinha seu apelo prático — e o perdeu com a significação do termo. Espers reflete o espírito do cenário ao amarrar conceitos inspirados na animação japonesa de ficção científica em um cânone único e funcional. Bola pra frente.

Não vou fingir ter tomado essas decisões sem alguma hesitação, mas a adoção do termo já me ajudou a dar uma sintonia fina conceitual nos men… não, nos Espers. O vindouro romance de Brigada Ligeira Estelar já parece refletir isso (na verdade, contribuiu com a mudança). Os nomes antigos não desaparecerão cem por cento do cenário e fazem parte de sua história. Mas cairão em gradual desuso.

E claro, mudanças assustam, mas podem ser boas.

Até a próxima.

6 comentários

  1. Então. Eu sou um dos que nunca gostou do nome Animal de Companhia, sempre achei bem limitador o termo, e o principal, não anima ninguém a querer jogar com eles. Porém, em minha opinião, Falante empolga tanto quanto e menos ainda.

    Discutindo com meu grupo, acho que Familiar seria um termo mais ligado a RPG e talvez traga mais atenção a essa “raça” jogável. Afinal, a maioria que conhece jogos e animes sabe que o Familiar em geral é apenas um aliado, normalmente não se pode jogar com um, mas em BLE poderia.

    Outra opção seria Moreau, por questões literárias, e ainda faria um link direto com Tormenta, acho que o Cassaro não ia se importar nem um pouco.

    Por último, se for optar por algo bem simples, como Falante, acho que o termo Companheiro ou Protetor seria mais legal (Protetor por sinal é uma opção de personagem no cenário de Invasão RPG do Cassaro). Fica aí minhas sugestões, Alexandre.

  2. Nossa, muito legal ver todo o processo criativo por trás de um “simples nome”.
    Demonstra o todo o cuidado que se tem com a coerência interna e etc.
    Parabéns pelo cuidado com o material!

  3. Curti o Esper… Já o “Falante” tá estranho pacas… Não sei se melhor ou pior que Animal de Companhia… Mas também não imagino nada diferente… auhauahuah

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