Por Trás do Sabre: Annelise

Há um motivo pelo qual decidi abordar logo Annelise nesta série de artigos: andei mexendo em nichos sombrios dentro do cenário e isso poderia gerar impressões erradas para quem chegou agora a este blog. BRIGADA LIGEIRA ESTELAR RPG foi pensado para abrigar diferentes aspectos das animações sci-fi japonesas com robôs gigantes. Um mundo pode ser mais talhado para o cyberpunk, outro para o pós-apocalíptico… mas isso não define o cenário como um todo.

Por que um “Planeta Shōjo” (ou seja, um planeta no tom das obras japoneses para meninas)? Na verdade, essa definição talvez seja reducionista para Annelise. Em algum momento ocorreu um compartilhamento de fontes e influências comuns, tanto para o demográfico feminino quanto para os robôs gigantes: o Japão, ao longo do século XX, consumiu, e muito, a literatura ocidental “de formação” — e criou um misto de identificação e idealização com a Europa.

A adaptação constante de clássicos ocidentais para animação — em blocos como o World Masterpiece Theatre da NHK, em séries como Manga Sekai Mukashi Banashi (“Super Aventuras” no Brasil) ou para o teatro Takarazuka — são fruto desse contexto. É claro, boas definições são sintéticas e explicativas — se você quiser isso de sua campanha, agarre o conceito! Mas, indo logo ao nosso ponto, precisamos falar do diretor de animação Tadao Nagahama… de novo!

Nagahama foi quem trouxe a ÓPERA de Space Opera para o primeiro plano
nesse gênero — e desde então ela nunca mais saiu dali realmente.

Referências Iniciais

Já o mencionei e à sua Trilogia do Romance dos Robôs várias vezes neste blog mas repito — sem essas séries de super-robô, o real robot jamais seria o mesmo. Ele bebia dessas influências e as levou para o gênero: Combattler V desmontou os clichês velhos. Voltes V é uma telenovela clássica! Tosho Daimos rompeu os limites de demografia com um romance como eixo. Haveria um quarto* mas Nagahama morreu de hepatite enquanto dirigia… A Rosa de Versalhes.

Como autor, vejo Annelise como “o Real Robot de Tadao Nagahama” mas, para o jogador casual, isso não diz nada. Então, pense telenovela (leiam sobre o Tom Folhetinesco AQUI). Quase toda série do gênero tem algo desse DNA e a franquia Gundam é cheia de exemplos: a Neo-França de G Gundam (em tom de farsa, claro), o Reino de Sanc em Gundam Wing (“você na verdade é uma princesa”), a aristocracia de Gundam F91… e, claro, essa influência não termina aí.

Em geral esses aspectos na franquia Gundam podem até se tornar cosmeticamente
proeminentes, mas nunca definem realmente a execução. Podem conferir.

Animes híbridos, voltados a diferentes demografias de público, podem trazer ideias nesse sentido. Mesmo sendo mais puxado à fantasia, The Vision of Escaflowne é um ótimo exemplo: o quinto capítulo mostra um resgate heróico. O sexto joga a protagonista em um triângulo amoroso palaciano. Tudo isso temperado com robôs gigantes — os aspectos do gênero poderiam se tornar decorativos em meio ao folhetim mas isso não ocorre em nenhum momento, ainda bem!

Mas são raras aquelas a expor esse espírito sem máscaras e, por isso, talvez seja útil ir além dos robôs gigantes. O Rosa de Versalhes televisivo, nas mãos de Nagahama, era cheio de peripécias — mais do que o original. Os velhos livros da “Biblioteca das Moças” (só em sebos) não são tão diferentes dos shōjos setentistas (O absurdo “Elza”, de M. Delly, é uma ótima pedida — com direito a uma perversa menina espiã infiltrada a serviço da Alemanha!).

Sim, histórias de cortes, romances de bastidores e reviravoltas podem
ser referências interessantes para campanhas ambientadas em Annelise.

Annelise em Jogo

Convenhamos: embora a vida nunca tenha sido mais ou menos barra pesada em nenhuma época da história humana, nossa relação com a cultura por nós consumida tende a oscilar entre períodos mais ingênuos e períodos mais cínicos — ou “o quanto deixamos a realidade da vida afetar nossa suspensão de descrença”. Haverá sempre quem não se deixe levar pela impressão, digamos, Disneyificada de um mundo como Annelise. É bom saber o que seus jogadores esperam.

Aventura Romântica: é mais um viés de história — boas pessoas podem fazer diferença, o amor verdadeiro vence no fim, colaboração é fundamental, etc.**

Esportes: o Grande Torneio (ver A Constelação do Sabre, Vol. 1) pode ser um terreno público para um acerto de contas — como nos animes shōnen de luta.

Ficção Científica Clássica: há pesquisa biológica e tecnológica. Os bastidores podem ser novelescos (a filha do cientista etc.) mas há riscos maiores.

The Vision of Escaflowne nunca negligenciou o papel dos robôs e do fantástico — e,
analisando friamente, talvez ela esteja mais para o sci-fi do que para a fantasia…

Mistérios: pode haver esqueletos por trás dessa fachada de beleza e quanto mais chegarem perto de segredos, mais oponentes os personagens enfrentarão.

Folhetim Espacial: abrace o capa-e-espada! Intrigas da corte, segredos, duelos, seduções… e você ainda pode jogar o Círculo da Espada no meio de tudo!

Space Opera: ponha elementos de super-ciência e combates espaciais em meio ao seu novelão. Na verdade, eles podem ajudar a manter a trama movimentada.

Talvez por isso eu esteja me detendo um pouco mais aqui. Talvez eu mesmo esteja sendo reducionista em nome da compreensão do conceito: muitos materiais japoneses para meninas, inclusive os de época, podem ser extremamente cruéis ao longo do caminho, mesmo oferecendo um final feliz ao final da jornada. Por trás dos robôs e de todos os eventuais elementos científicos, o maior obstáculo é sempre a maldade humana e isso não é exclusivo desse planeta.

…mas vamos ser honestos: o motivo pelo qual essa série tem um
eleitorado feminino tão grande não tem nada a ver com os robôs!

Às vezes um pequeno detalhe pode pegar a tensão de uma trama e potencializar o drama (e ou tragédia) a enésima potência. Na aventura “A Face Negra de Stephanos”, há uma chance potencial dos personagens se apaixonarem pela jovem nobre — e isso pode ser fonte de tragédias na mesa. A trajetória do deuteragonista de Aldnoah Zero (Slaine Troyard) é um exemplo de como as paixões de um personagem podem levá-lo à ruína… e isso também faz parte do pacote.

Talvez meu conselho final seja: não há melodrama sem dramas e sentimentos humanos. O novo BRIGADA LIGEIRA ESTELAR RPG trará um atributo novo (Vontade) e ele fará diferença nessa dinâmica mas, mesmo com o 3D&T Alpha, um contexto como esse pede interpretação. Veja até onde cada jogador está disposto a ir — e, se essa abordagem não der certo em sua mesa… vocês sempre poderão voltar à ação e aos robôs. Tenha isso em mente.

Até a próxima e divirtam-se.

* Mirai Robo Daltanias (ou Daltanious, dependendo da fonte, mas Daltanias é mais legal) foi produzida postumamente. A trama foi planejada pelo autor em vida mas sem ele, alguns aspectos da trilogia se encontraram ausentes — especialmente na caracterização dos inimigos. É bacana mas… não é a mesma coisa.
** Infelizmente não há muita referência a abordagens como essa. Um dos poucos a tocarem no tema é o Blue Rose RPG da Green Ronin. Talvez seja útil.
No topo: Arte de Simone Beatriz.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s