Por Trás do Sabre: Bismarck

De todos os mundos da Constelação do Sabre, Bismarck foi um dos mais difíceis de se definir — por um motivo simples: a influência prussiana na europeização cultural do Japão foi enorme (podemos vê-la até mesmo nos trajes escolares abotoados até o pescoço)… e porque sempre há “alemães do espaço” nas ficções científicas japonesas: os Gamilons de Partulha Estelar, a Zion de Gundam, os Windermere de Macross Delta… ou seja, eu não poderia fugir disso.

Mas o grande problema morava ao lado: Yuden, de Tormenta. Apesar dos nomes vagamente russos de seus regentes, ele claramente misturou o perfil militarista prussiano ao discurso da Alemanha Nazista (através dos puristas). Eles são os “alemães do mal” do cenário, nem há como discutir. Logo, para fugir dos comparativos de uma Yuden do espaço, me restaram duas escolhas: a primeira era deixar pra lá. A segunda era… reinventar o clichê de alguma forma.

Assim veio a minha primeira decisão sobre Bismarck: eles não seriam vilões e a iconografia nazista seria jogada pela janela*. No entanto, os aspectos prussianos ficariam — por conta, repetindo, de sua influência em terras nipônicas (e muitos desses elementos chegaram até nós graças a cultura pop). Além disso, antes das duas guerras, a Alemanha era lembrada como o lar de artistas, filósofos e escritores… e achei esse um excelente ponto de partida.

Boa comida, alta cultura, literatura, ópera… mas os robôs gigantes estão ali do lado.

Adicionei à mistura o amor pelos esportes, traindo um espírito competitivo, e daí veio o gancho: Bismarck é um mundo desenvolvido e há nele uma cultura da eficiência e da excelência. São leais ao império mas podem ser complicados de se lidar, graças à sua busca por ordem. A partir daí, adicionei alguns detalhes (como uma rigidez impiedosa nas regras, enfatizada pela exigência dos cabelos curtos entre pilotos independentemente de gênero) e pronto.

Bismarck é, também, um mundo culturalmente rico. Isso não exclui sua faceta militarista e de quebra nos oferece uma nova camada: eles valorizam a alta cultura, leem muitos livros e talvez discutam acaloradamente sobre filosofia, música e literatura em cafés. Talvez seu senso de romantismo seja bem mais… melancólico — em oposição à visão de Annelise. Isso poderia jogar uma sombra interessante sobre o contexto de duelos e reviravoltas do cenário**.

Quanto mais rígida a sociedade, maior o gosto por materiais lacrimejantes, repararam?

Referências Iniciais

Os exemplos da norma são muitos: acompanhamos a sociedade dos citados Gamilons de Patrulha Estelar através de seu alto escalão das forças armadas — é claramente uma ditadura militar. No caso do Reich de Lenda dos Heróis Galácticos, a banda toca de forma literal e nem há um esforço de disfarçar isso: o clichê do aristocrata arrogante é abraçado e não por acaso, podemos vê-lo nos Cavaleiros Aéreos de Windermere em Macross Delta. Mas por outro lado…

… eles cultuam valores de orgulho, cavalaria e honra (embora entrem em contradição com eles na série) e este é um contraponto necessário ao se lidar com um clichê do tipo: ele cabe perfeitamente naquele personagem aristocrático de espírito junker, totalmente cioso de sua herança mesmo quando está cercado da pior escória de farda ao seu redor. Figuras como essas podem ser até vilanescas, mas tem seus limites morais e não ultrapassam certas linhas.

Ah, qual é! Em Macross Delta, essa não era nem uma analogia sutil!

Não estamos dizendo que todo Bismarckiano é tirânico ou sem senso de humor. Todos os tipos de personalidade são possíveis — falamos apenas de um padrão cultural maior, influenciando esse povo em um nível cotidiano. Também não estamos passando pano nos discursos eugenistas tão associados aos “prussianos do espaço”. Eles se aliariam a Tarso se a banda tocasse dessa forma… e a subversão do clichê seria perdida. Eles precisavam ser superiores a isso.

O problema de subverter um clichê é uma potencial perda de chão — mas há outros ganhos: no terceiro ano do Patrulha Estelar original, o vilão Desslok se torna um amigo dos herois mas não mudou realmente a sua personalidade — só mudou de lado***. Aliás, todos os fãs antigos de Jornada nas Estrelas lembravam dos Klingons como inimigos e, com a entrada de Worf na tripulação (ele não era menos Klingon por isso), nós passamos a vê-los por outra ótica.

Desslok (Dessler) na versão original. Seu ponto de virada começa aí.

Bismarck em Jogo

Tendo estabelecido o perfil do Bismarckiano, foi preciso definir como funcionaria Bismarck em si e ele adquiriu características muito distintivas, como a ascensão de uma burguesia politicamente perigosa e o consequente risco de corrupção dos valores tão prezados por seu povo. É menos definido por problemas internos e mais por sua dinâmica com os mundos ao redor — vide suas tensões políticas com Viskey — mas tem muito a oferecer por conta própria.

Heroísmo Romântico: ele é mais um viés de história, como dito em outro artigo, mas aqui esse elemento pode vir de um modo mais soturno… e trágico.****

Esportes: não, você não leu errado. O Eisenkrieg — um paintball eletrônico com robôs pilotáveis — pode render uma campanha bem fora do padrão, sabiam?

Ficção Científica Militar: Bismarck não investe tanto no seu efetivo para recuar quando for hora de usar suas armas e robôs, para o bem ou para o mal.

Este ainda é um cenário de robôs gigantes, pessoal. Lembrem-se sempre deles.

Folhetim Espacial: disputas entre a Brigada e a Guarda Regencial, duelos e intrigas são parte do cenário — mas a realpolitik pode turbinar as apostas.

Pós-Cyber: todo planeta desenvolvido, industrializado e competitivo, põe suas fichas em pesquisa científica e tecnológica. Isso pode ter seus revezes…

Space Opera: rotas de salto ligam Bismarck a diferentes mundos. Eles não fugirão a um combate espacial se mercenários, piratas ou a TIAMAT o atacarem…

Bismarck de forma geral é descrita em A Constelação do Sabre, Vol. 1 (AQUI). É um mundo em processo de transformação e está muito inserido nos assuntos da Aliança. Sua posição nos mapas estelares colabora para isso: em termos de rotas de hipersalto, esse planeta está bem próximo de Tarso caso estes saiam da toca e isso o torna um alvo potencial para os inimigos internos da Aliança Imperial, mas isso faz parte do jogo — e ele se garante muito bem.

Vão encarar, pessoal?

Não é difícil envolver esse planeta em suas tramas, especialmente quando temos uma burguesia ainda jovem — mas disposta a tudo para se encaixar na máquina do poder. Além disso, o fato dos Bismarckianos serem altamente treinados, armados e eficientes sempre pode subir às suas cabeças (especialmente quando a Brigada Ligeira Estelar pode se mostrar “sem rédeas” demais aos seus olhos). Hubris é a verdadeira oficina do tinhoso e, em geral, custa caro.

Este mundo pode gerar vilões terríveis, sim — mas todos os mundos na Constelação podem gerá-los. Pensando bem, muitos elementos ligados ao tão temido tropo foram absorvidos, a seu modo, por Tarso (por um misto de classismo social e interesses empresariais, fazendo dele um animal diferente). Se eu seguisse a regra desde o começo, não acrescentaria nada relevante ao cenário.

No final, fiquei feliz em romper com um clichê.

Até a próxima e divirtam-se.

Eu falei que os robôs gigantes estão ali do lado?

* Todos sabem da minha reverência pelos animes e mangás mas não vou fingir: há MUITA fetichização da estética nazista na cultura pop Japonesa. Seria fácil fazer uma lista grande de animes e mangás com culpa no cartório (no próprio gênero mecha há um exemplo gigante — e óbvio — dessa glamourização acidental)… mas apenas dê uma olhada entre os cosplayers na Comiket, o maior evento de quadrinhos do Japão. Isso sem falar em sua presença na música pop: este caso não é isolado.
** Basta lembrar da bio de Rudolf Von Helm (A Constelação do Sabre Vol. 1, página 49), amarrando, de uma tacada só, um ás duelista, tragédia romântica, poderes mentais e ascensão política.
*** Dessler é um caso especial. Os Gamilons realmente começaram sob o clichê dos “Nazistas do Espaço”, mas seu líder se mostrou um personagem muito carismático e popular, redimindo-se e tornando-se um aliado — muito em nome dos seus códigos de honra pessoais. Com isso, eles passaram a ter um perfil mais espiritualmente prussiano, mesmo.
**** Menos do que envolver romances e casais, no heroísmo romântico, há valorização da nobreza de intento e da passionalidade. Não é um peixe fácil de vender hoje em dia. O longa Capitão Harlock e a Nave Arcádia é um dos grandes exemplos, nos animes, dessa vertente em sua forma trágica.

De resto, vou aproveitar o rodapé para um comentário pessoal: a Alemanha reconhece suas culpas e combate como pode os focos da extrema direita no próprio país. Devemos sempre estar alertas contra o nazismo e o fascismo, mas a essa altura eles já mudaram de casa. Pensem nisso.

DISCLAIMER: Patrulha Estelar é propriedade da Nishizaki, co.; Gundam G40, da Sunrise, Inc.; Macross Delta, do Studio Nue; Lenda dos Heróis Galácticos, de Yoshiki Tanaka, Tokuma Shoten Publishing Co., Ltd., Tokuma Japan Communications, Wright Staff Co., Ltd., e outros. Todos os direitos reservados.

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